É a especialidade que cuida das patologias do sangue na infância, desde o recém-nascido até a adolescência. Crianças não são adultos em miniatura, portanto, exigem um profissional especializado que é o hemato pediatra.
As patologias infantis divergem dos adultos, também na área da hematologia. Vou discorrer aqui sobre os problemas mais frequentes entre as crianças.
As anemias carências por deficiência de ferro ou vitaminas do complexo B (B12, ácido fólico) são as mais relevantes. Decorre por baixa ingesta em situações de pobreza, mas também, e principalmente, por erro alimentar. Muitas vezes o alimento é acessível, porém é oferecido na forma errada ou trocado por outros sem o mesmo valor nutricional.
A anemia carencial pode também estar relacionada a perda sanguínea intestinal causada por alergia alimentar ou deficiência na absorção desses nutrientes como ocorre na doença inflamatória intestinal. Vale mencionar o vegetarianismo, onde a não ingestão de derivados animais pode acarretar deficiência vitamínica e anemia.
As hemoglobinopatias são alterações hereditárias na hemoglobina, componente das hemácias que podem levar anemia. Os tipos mais frequentes no Brasil, por nossa miscigenação, são a anemia falciforme de origem africana e a talassemia de italianos.
Os leucócitos são células sanguíneas responsáveis pela imunidade. Na infância são frequentes alterações como aumento (leucocitose) ou redução(leucopenia) dessas células. Na maior parte das vezes, decorrem de quadros febris agudos associados às infecções virais ou bacterianas.
É importante estar atento a situações mais graves, onde o diagnóstico de leucemia deve ser afastado. Esses casos evoluem com leucopenia intensa a custas de neutrófilos (neutropenia) e geralmente associada a redução de outras células, situação conhecida por pancitopenia.
As plaquetas e os fatores de coagulação são responsáveis pela coagulação sanguínea. Problemas nesse setor levam sangramentos espontâneos ou desproporcionais ao trauma.
A plaquetopenia autoimune (PTI) se deve a queda na contagem das plaquetas. Geralmente são desencadeadas por infecções ou vacinas. A criança inicia subitamente hemorragia na pele (equimoses, petéquias) e/ou sangramento vivo pela gengiva, narinas (epistaxe), intestino (enterorragia).
A conduta na maioria das vezes é expectante, pois a evolução é aguda e em poucas semanas ocorre remissão dos sintomas. Quando há sangramento grave ou queda acentuada nas plaquetas é necessário tratamento.
As coagulopatias hereditárias são as hemofilias e doença de von Willebrand (DvW). A hemofilia é transmitida através de herança genética ligada ao sexo, sendo meninos os afetados. Dependendo da gravidade, pode haver sangramento logo ao nascimento ou nos primeiros traumas da infância, como ao engatinhar ou quando começa a andar (para mais informações ver texto especifica nesse site).
A DvW atinge ambos os sexos e seus sintomas são variáveis. Há casos graves, com sangramentos espontâneos nos primeiros anos de vida, mas também aqueles de manifestação mais tardia, em situações de desafio do sistema de coagulação (grandes traumas e cirurgias). Chama a atenção nas adolescentes, o alto fluxo menstrual.
Trombose é a presença de coágulos sanguíneos (trombos) em artérias ou veias do corpo. É uma situação super rara na infância. A prevalência é de cerca de 1 caso por 100.000 crianças.
O problema ocorre, na maioria das vezes, entre crianças hospitalizadas em estado crítico, com dispositivos vasculares (catéter) e comorbidades de base. Entre adolescentes chama atenção a trombose após início de pílula contraceptiva. Portanto, são os fatores de risco externos os maiores predisponentes da doença em pediatria.
Os sintomas dependem do local atingido pelo trombo. Nos membros inferiores ocorre edema (inchaço), vermelhidão e dores nas pernas geralmente unilateral, na trombose cerebral a queixa é cefaleia intensa, vômitos, convulsão e na embolia pulmonar a criança apresenta dispneia (falta de ar) e dor no peito.
O diagnóstico é feito através de exame de imagem (ultrassom doppler, tomografia ou ressonância magnética). O tratamento requer uso de anticoagulantes que pode ser injetável em crianças menores ou orais nos adolescentes.
A doença pode ter origem genética, situação conhecida por trombofilia hereditária. São sugestivos de trombose genética quando se manifesta de forma espontânea ou na presença de antecedente familiar da doença.